sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O escafandro e a borboleta

— Foi o tema da eutanásia me fez escolher O escafandro e a borboleta para exibição no cineclube da psicologia.
— Mas como? Você não poderia ter escolhido filmes “mais apropriados”, que enfocassem direta e mais abertamente essa temática? Poderia ter sido Mar adentro ou Invasões bárbaras, se você quisesse permanecer nos filmes “cult” de média bilheteria ou, até mesmo, dando o braço a torcer à indústria hollywoodiana, a megaprodução de Clint Eastwood, Menina de ouro.
— Claro que poderia e se não o fiz foi de propósito, por mera provocação.
— Como assim? Você tá se achando o Antônio Abujamra hein rs...
— Menos! Ainda não consigo ser tão carrancudo e meu grau de cinismo é atualmente, apenas, moderado. O que eu queria era uma personagem protagonista que refletisse o paradoxo frente à morte. Por isso a escolha de O escafandro e a borboleta.
— Paradoxo?! Sei não hein...
— Isso mesmo. A palavra paradoxo, cuja etimologia é grega, tem ao menos dois sentidos. Significa tanto “contradição”, significado mais literal, quanto “maravilha”, significado mais metafórico. Seria redundante dizer que numa sociedade racionalista como a nossa o significado literal sobrepujou o metafórico, a ponto de a maioria das pessoas sequer conhecer ambos. Triunfo de Platão, né? Não foi ele que propôs a expulsão dos poetas da Pólis?
— Quer dizer então que a contradição é uma maravilha?
— Maravilha no sentido de causar um estranhamento. Seria algo próximo à palavra alemã Unheimlich, ou seja, o “estranho” que encanta, como bem assinalou Sigmund Freud num texto homônimo. E tal encanto talvez venha do fato de que o “estranho” — que possui o mesmo radical de “estrangeiro” — talvez seja o que há de mais “íntimo” em nós. Eis o paradoxo!
— Lá vem você citando um cara que se achava a própria reencarnação do Aristóteles, ao menos ao adotar a mesma postura arrogante de atirar pra todos os lados e tudo explicar! Brincadeira aquele texto anacrônico do Freud sobre o sentido antitético das palavras primitivas!
— Pois é... Freud às vezes extrapolava o limite do bom-senso, mas não estou aqui para defendê-lo, o que implicaria acatar o julgamento e advogar em sua causa. Sequer tenho conhecimento histórico suficiente para contextualizar a obra freudiana frente à “ciência” médica da belle époque — chamada por Karl Jaspers de “mitologia cerebral” —, contra a qual Freud se contrapunha. Tem um livro do Henri Ellenberg, The Discovery of the Unconscious: The History and Evolution of Dynamic Psychiatry, que se propôs a isso... o problema é que quase ninguém o conhece no Brasil pois ainda não existe tradução para a língua portuguesa, apesar de ele datar de 1970; isso sem contar o incômodo que representa seu enorme conteúdo de cerca de mil páginas. Nunca entendi direito o mercado editorial acadêmico brasileiro: se há dois autores que escrevem sobre o mesmo tema, traduz-se e publica-se quase sempre o texto mais fácil, daí conhecermos Elizabeth Roudinesco, e desconhecermos Ellenberg, esse médico frustrado cujo sonho era ser historiador, que inaugurou uma nova perspectiva historiográfica sobre a psicanálise. Mas, mesmo que eu tivesse tal conhecimento, seria tarefa por demais hercúlea expô-lo nesse nosso bate-papo informal aqui na Tia Vera. Só não penso que um equívoco anule um acerto e, nesse sentido, o texto do Freud sobre O Estranho merece nosso reconhecimento por mais que outros textos dele nem tanto, como o que você acabou de citar. Acho engraçado alguém dizer por aí afora que ultrapassou Freud; ora, Freud ou qualquer outro autor já morto, como Michel Foucault, por ex., só poderiam ser ultrapassados se estivessem vivos dialogando com a contemporaneidade. Fato é que O Estranho, de 1919, no qual Freud comenta o conto de E. T. A. Hoffmann, O Homem de Areia, abriu o caminho para se pensar o paradoxo que a morte representa: uma “estrangeira íntima” — ao mesmo tempo, rechaçada e desejada.
— Mas como isso aparece no filme?
— Bem, o escafandro é uma roupa de mergulho de águas profundas que limita os movimentos do mergulhador a quase nada. De modo análogo, essa era a situação do protagonista do filme depois que ele sofreu um AVC, nosso popular “derrame cerebral”. Após isso, ele desenvolveu a chamada síndrome do cativeiro ou síndrome pontina ventral, ou ainda, ventropontina, que é o estado caracterizado por tetraplegia e lesão dos nervos cranianos baixos. A conseqüência é que a pessoa torna-se prisioneira de seu próprio corpo, só possuindo os movimentos verticais do olhar e piscamento, os quais podem servir para fins de comunicação. Com o agravante de que, no caso em questão, seus movimentos limitavam-se ao olho esquerdo, já que o direito foi literalmente costurado para evitar o risco de infecções. Ainda impactado com as mudanças extremas que essa nova condição existencial lhe trouxe, tendo sido o protagonista ex-bon vivant com uma intensa vida social, sobretudo no mundo da moda com o qual trabalhava, ele declara à fonoaudióloga que o assistia seu desejo de morrer, ao que ela de pronto responde ter sido ele “desrespeitoso” e “obsceno”. Pasme! Foram essas as exatas palavras utilizadas pela profissional em questão como resposta a mera alusão à possibilidade da morte como uma libertação para seu paciente — daí a analogia com a borboleta quando sai do casulo. Que tipo de escuta clínica é essa, do ponto de vista ético-profissional? A meu ver, nesse momento essa profissional foi a porta-voz do senso-comum e de toda uma construção social acerca da morte como algo inaceitável do ponto de vista moral, como um autêntico tabu sobre o qual a censura deve incidir — e quanto mais íntimo é o tema, maior é o rechaço que recai sobre ele. Além do mais, todo argumento em defesa da vida do protagonista associou-se à existência de seus entes queridos que o estimavam muito, que rezavam por ele e que precisavam dele, como se ele tivesse que viver só para os outros, e não também para si mesmo. Isso é golpe baixo!
— Mas enquanto há vida há esperança, não?
— Vida, vida! Ora, você fala desse conceito como se ele fosse algo definido com precisão. Se eu pedisse pra você me definir em poucas palavras o que é a vida você conseguiria?
— Talvez! Pra mim, a vida é a própria ordem natural das coisas.
— Pois bem! Existe algo mais artificial do que a vida do protagonista? Até porque num dos primeiros diálogos do filme, o médico relata que ele só sobreviveu em função do avanço recente das técnicas de ressuscitação. Ou seja, a ordem natural das coisas, não fossem as parafernálias biotecnológicas, seria a morte, e não aquilo que se presume ser a vida. Até porque há o interesse do mercado no prolongamento da vida, a despeito de sua qualidade, afinal de contas, os moribundos são consumidores permanentes dos produtos e serviços hospitalares.
— Ainda continuo apostando na vida.
— Você parece perpetuar a idéia de que não existe morte digna, cujo contraponto lógico seria a idéia de que não existe vida indigna. Tal como a moral religiosa, os vitalistas geralmente tomam a vida como um valor absoluto e essa é uma das maiores críticas ao pensamento de Georges Canguilhem na atualidade. Proponho a você assistir o filme Johnny vai à guerra, que problematiza esse furor médico de prolongar a “vida” — mesmo que reduzida à vida vegetativa — a qualquer custo, talvez muito mais por uma questão narcísica profissional do que por qualquer outro motivo mais nobre. Digo isso como uma tendência teórica da profissão médica, haja vista que na prática, muitas vezes, a vida é abreviada simplesmente por uma questão de logística no gerenciamento dos leitos existentes nos hospitais brasileiros. Mas estamos discutindo um filme cujo contexto é outro, como bem observamos na opulência dos tratamentos recebidos pelo protagonista.
— Não consigo conceber a idéia de uma morte digna.
— E de uma vida indigna você consegue?
— Menos ainda.
— Talvez porque você associe a vida a uma dádiva divina cuja renegação implicaria ingratidão.
— Na verdade, não consigo conceber quem julgaria a indignidade ou não de uma vida?
— Nesse caso, necessariamente a pessoa que a vive. O protagonista do filme pode comparar sua condição imposta pela gravíssima doença que o acometeu com seu estado anterior pré-mórbido e, assim, julgar por si mesmo a dignidade ou não de sua nova vida, tendo em vista tratar-se de um indivíduo adulto que conservou sua capacidade cognitiva e sua autoconsciência intactas. Se dermos espaço para o “coletivo” julgar a dignidade ou não de formas de vida, corremos o risco de cair nas políticas eugênicas de eliminação dos indesejáveis, cujo corolário foi a “solução final” proposta pelo Nacional Socialismo.
— E onde fica a capacidade de superação das adversidades, do ultrapassamento de si?
— Bem, eu poderia ter abordado essa temática... poderia ter falado da normatividade, da capacidade de se criar novas normas de vida, apesar das restrições impostas pela doença... da importância dos profissionais de saúde nesse processo de metamorfose da larva em borboleta, se me permitem a licença poética... mas, se não o fiz, foi de propósito pra sair um pouco dos clichês e abordar algo que permanece recalcado: o direito à morte. Por mais que o protagonista tenha aparentemente encontrado um sentido para si a partir da prática da escrita de um livro que dá título ao filme, parece-me que a dimensão entediante perpassa toda sua existência pós-mórbida, como se percebe em suas lamentações na ocasião em que ele completa um ano no hospital. Vale à pena vivenciar tamanha sensação de tédio, sendo justamente esse afeto “um estado de espírito tipificado pela falta de qualidade”, como o define o filósofo norueguês Lars Svendsen, em trabalho recente sobre o tema? Pode-se conceber a noção de uma “existência sem qualidade”, sendo que o próprio conceito de saúde, tal como definido pela OMS, pressupõe a qualidade de vida como seu principal indicador?
— Você disse que se não fossem as biotecnologias, o protagonista do filme não teria sobrevivido ao AVC. Mas o avanço dessa mesma biotecnologia não poderia propiciar-lhe uma melhor qualidade de vida, como por ex., com o desenvolvimento de programas de computação controlados pelo olhar que facilitassem a comunicação ou com o implante de próteses neurais que recuperassem o funcionamento das áreas cerebrais lesionadas?
— Sem dúvida! Mas aí já não estaríamos no domínio do humano, mas sim dos ciborgues — tão exaltados por Donna Haraway —, espécie de híbridos de humanos com máquinas que sairão da ficção científica e, dentro em breve, se tornarão realidade. Quem sabe não criemos assim uma nova geração de seres menos bélicos, menos preconceituosos e mais solidários? Afinal, Charles Darwin nunca disse que a evolução tenderia a um fim, muito menos que esse suposto fim coincidisse com o advento do Homo Sapiens.
— Caramba! Agora você viajou na maionese hein!
— Antes viajar na maionese que se empanturrar dela né? rs...
— Vamos pedir a saideira e a conta, então? Depois que eu acabar esse sanduíche, é claro.
— Vambora! E de pensar que sequer isso o protagonista do filme poderia fazer...

3 comentários:

  1. Rogério, gostei do texto. Inventivo e cheio de referências, nesse sentido generoso. Bom, mas quero tratar do direito de morte. Hoje, aqui no br.com, o suposto direito de vida moraliza o processo eleitoral. A questão do aborto e a moral carrancuda de uma cristianismo arcaico dão um tom estranho aos discursos do PT e do PSDB. Coisa triste! Por outro lado, essa conversa sobre o direito de morrer dignamente, pra mim, quase nada ultrapassa a margem que a individualidade atual constrói para si. Algo assim: se não posso viver do meu jeito, que eu morra do melhor jeito para mim e para o conforto daqueles que me são próximos. Nesse sentido, as ditas tecnologias, que podem dar extensão a vida fisiológica de um corpo – alimentando-o de esperança, são também condição para o ato daqueles que viessem a optar pelo direito de morrer dignamente. Uma injeção disso ou daquilo e se desliga o corpo insuficiente a realizar a projeção que tinha para si. Muitas idéias, poucas palavras. Em síntese: o direito de morrer funciona como uma estranha face do direito individual de viver. Estranha porque evitamos o seu semblante até o último minuto. Qualquer coisa, na próxima cerveja no bar da Vera, dá um toque que a gente continua a conversa. Abraço!
    Kleber Matos

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  2. Só mais um comentário, se me permitem... Penso que a eutanásia seja a medicalização da morte - nesse sentido, as teses que a concebem como uma espécie de "suicídio" assistido não são tão despropositadas assim; no entanto, subjaz uma diferença fundamental: embora o limite seja muito tênue, o suicídio é a interrupção da vida na sua potencialidade, enquanto a eutanásia é a antecipação da morte na sua potencialidade. De fato, a mesma biotecnologia que visa a continuidade a qualquer custo da "Vida" , pode também abreviá-la. No filme em questão, o protagonista sequer tinha a prerrogativa de "despedir-se do absoluto", como Freud e Deleuze, por exemplo, o fizeram ao optar pela libertação do casulo num salto rumo ao desconhecido. Nesses casos, a morte não apontaria para uma opção em prol da vida (grafada com minúscula para demarcar sua processualidade)? Eis o paradoxo!

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  3. Estava relendo meus fichamentos da época do mestrado quando me deparei com a seguinte passagem do antropólogo francês David Le Breton:

    “A demanda de eutanásia se consolida sobre uma dor mal considerada pela medicina, ela nasce também do abandono do doente, confrontado a um fim de vida sem significação, privado do reconhecimento dos outros, colocado frente à indiferença ou reprovação dos seus cuidadores. A experiência (...) atesta que, onde a doença encontra compaixão, escuta, alívio eficaz das suas dores, a demanda de eutanásia desaparece. A dignidade é um produto social. Não há estado indigno, sobretudo em se tratando de doentes ou pacientes terminais. Há sobretudo olhares indignos, olhares que julgam e expressam o desprezo ou a indiferença” (p. 172).

    Le BRETON, D. Réflexions sur la medicalisation de la douleur. In: AÏACH, P. & DELANOË, D. (Orgs.) L’`ere de la médicalisation - Ecce homo sanitas. Paris: Anthropos, 1998.

    Talvez eu tenha, de fato tido um olhar bste enviesado sobre o estado de saúde do protagonista do filme.

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